Descubra as diferenças


A M. Moleiro acaba de lançar um fac-símile do Atlas de Fernão Vaz Dourado. O fundador da editora especializada em réplicas de luxo de obras-primas bibliográficas explica como consegue fazer cópias tão fiéis ao original que até têm o mesmo cheiro.
 
Manuel Moleiro, editor galego estabelecido em Barcelona, tem motivos para estar orgulhoso. Os seus livros – réplicas exatas de atlas ou manuscritos iluminados – são apreciados por personalidades como Juan Carlos, George Bush ou Nicolas Sarkozy. O Papa João Paulo II dormia com uma obra saída da sua oficina na mesa de cabeceira. Por estes dias o editor espanhol encontra-se no Porto, onde inaugurou na quinta-feira a exposição Tesouros Bibliográficos (séculos X-XV): A Arte e o Génio ao Serviço do Poder. Trata-se de uma oportunidade rara, diz Moleiro, para ver obras- -primas da arte da cartografia e do livro como o Atlas Vallard (de 1547), o Breviário de Isabel a Católica (finais do século XV) ou a Bíblia de Saint Louis (1226-1234). Até 1 de maio, «é como se a Morgan Library de Nova Iorque, a British Library, a Biblioteca Nacional da Rússia, a Biblioteca Nacional de França e ainda outras grandes instituições mundiais» estivessem reunidas sob o teto do Palácio da Bolsa, no Porto, considera o editor. Embora não sejam, evidentemente, os códices originais a em exposição na Invicta, as cerca de 30 cópias exibidas revelam-se tão fiéis que é impossível, garante Moleiro, dar pela diferença. A M. Moleiro Editor, que tem por divisa ‘a arte da perfeição’, acaba também de juntar ao seu catálogo de ‘quase-originais’ o Atlas Universal de Fernão Vaz Dourado. Nas palavras de Silvestre Lacerda, diretor da Torre do Tombo, trata-se de «um dos tesouros do Arquivo Nacional da Torre do Tombo e uma das obras mais marcantes da cartografia portuguesa e internacional». Datado de 1571, o Atlas Universal de Dourado é uma obra de aparato, ou seja, destinada a deslumbrar e impressionar. Pouco sabemos hoje sobre o seu autor, mas presume-se que fosse «filho de Fernão Dourado, moço de corte que em 1513 embarcou em Lisboa para a Índia», nota João Carlos Garcia, professor da Universidade do Porto. «O nome Dourado, a ser tomado por alcunha, poderia apontar para uma origem profissional, porventura derivada de douradores ou de ourives», escreve Amélia Polónia, do Departamento de História e de Estudos Políticos e Internacionais da Universidade do Porto, no livro de estudos sobre o Atlas que acompanha a obra em fac-sí- mile. De certo, só sabemos que foi um cartógrafo do qual nos chegaram cinco atlas e que se identificava pelo cargo militar de «fronteiro nestas partes da Índia». «Associava o domínio da topografia do terreno», continua Amélia Polónia, «às suas competências militares», tendo participado no segundo cerco de Diu em 1546. O editor falou ao SOL sobre o Atlas de Dourado e explicou como consegue que os seus ‘clones’ sejam tão fiéis ao original que até têm o mesmo cheiro.
 
Desde quando se interessa pelo livro antigo?
O meu interesse, não só pelo livro antigo, mas pelos clássicos e as obras-primas da nossa cultura, é algo que vem desde sempre. E em 1991 comecei a dedicar-me à especialidade de clonar os manuscritos que se encontram nas bibliotecas nacionais de vários países. Por isso vir ao Palácio da Bolsa é como ir à Morgan de Nova Iorque, à British Library, à Biblioteca Nacional da Rússia e ver a obra mais importante de cada uma destas bibliotecas.
 
Como consegue obter autorização das instituições para clonar os seus tesouros?
Devido ao valor quer económico, quer documental e artístico desses manuscritos, é muito difícil ter-lhes acesso. Mas em 1991 fiz o clone do Beato de Fernando I, uma obra que está na Biblioteca Nacional de Espanha, e isso teve um grande impacto, porque o trabalho ficou perfeito. Se não tivesse corrido bem, possivelmente nunca teria acesso aos outros.
 
Agora é mais fácil?
Penso que hoje nenhuma institui- ção me negará o acesso às suas obras. Já trabalhei com a Biblioteca Nacional da Rússia, a Biblioteca Nacional de França, a de Espanha, a Torre do Tombo aqui em Portugal, a Fundação Gulbenkian, a Fundação Huntington, na Califórnia, o Metropolitan e a Morgan de Nova Iorque. Agora são eles que se dirigem a mim para o meu trabalho.
 
Existem contrapartidas financeiras ou de outro tipo envolvidas na produção das suas réplicas?
Cada vez que produzimos uma destas obras, fazemos um estudo aprofundado, que valoriza o original. E somos nós que o pagamos, do princípio ao fim. No caso do Atlas de Fernão Vaz Dourado contratámos onze autores, coordenados por João Carlos Garcia, da Universidade do Porto, que o estudaram ao nível mais amplo que possa existir. E as instituições beneficiam, tanto a nível econó- mico como a nível cultural, da divulgação que fazemos.
 
Para reproduzir uma obra com este grau de exatidão basta ter conhecimentos técnicos ou é preciso também ter conhecimentos de história e cartografia?
Para clonar estas obras é preciso, em primeiro lugar, ter a capacidade de o fazer, o que não é nada barato. Não é uma impressão sobre papel, é uma impressão sobre pergaminho, tratado e preparado para ficar exatamente como o original, com a mesma textura, a mesma espessura e até o mesmo cheiro. Trata-se de um trabalho altamente especializado. No caso dos códices de pergaminho, a pele tem de ser curtida de forma natural e não com cró mio, como se faz atualmente, porque isso seca os poros e o que pomos lá não perdura. É preciso fazer as coisas como se faziam na Idade Média ou no Renascimento, e há detalhes que requerem grande precisão. Para reproduzir qualquer pequeno defeito que possa haver, uma falta de pigmento ou um erro no dourado, recorremos a laser de alta precisão, o mesmo que se utiliza nas operações aos olhos.
 
Disse que os seu livros têm até o mesmo cheiro que os originais. Como se consegue isso?
Se tivermos um códice em que a encadernação seja de pele de cabra vamos buscar uma pele de cabra igual e curtimo-la da mesma forma. As costuras dos códices fazem-se com um fio que tenha exatamente a mesma composição e seja produzido pelos mesmos mé- todos e, se houver madeira na parte interior da capa, usamos o mesmo tipo de madeira. Há uma montanha de elementos que são os mesmos, as tintas têm a mesma composição. Com isso conseguimos que o cheiro seja o mesmo.
 
Por que se interessou pelo Atlas de Fernão Vaz Dourado? O que tem ele de especial?
O Atlas de Vaz Dourado é uma autêntica preciosidade, um dos mais importantes da história da cartografia. Sou um apaixonado por cartografia e a nossa editora tem reproduzido o melhor da cartografia da época dos Descobrimentos. E nessa época – final do século XV, princípio do XVI – a melhor cartografia é a portuguesa. Não fizemos apenas o de Vaz Dourado, temos outros, como o Atlas Miller, encomendado em 1519 por or dem D. Manuel de Portugal, e que está na Biblioteca Nacional de França. E o Atlas de Diogo Homem, que se encontra na Biblioteca Nacional da Rússia. E o Atlas Vallard, que foi feito em França, em Dieppe, mas cujos autores deviam ser todos portugueses e que se encontra na Funda- ção Huntington em San Marino, Califórnia. Desse ponto de vista, sinto-me satisfeito porque devolvemos a Portugal estas obras que aqui foram feitas, para que possam ser vistas e estudadas no seu país de origem.
 
Por que faz 987 exemplares de cada obra? É um número da sorte?
O sete é o número da perfeição. Na Bíblia o sete está sempre ligado à perfeição: são os sete dias da criação, a Besta do Apocalipse tinha sete cabeças, o sete é a perfei- ção do Bem e do Mal. A razão de ser dos 987 exemplares é que qualquer edição de menos de mil exemplares é uma edição curta e isso é muito importante para a valorização futura daquela obra. Quantos menos houver, mais cobiçados serão e maior também será o seu valor.
 
O valor destes libros aumenta com o tempo?
Sim, porque cada edição é certificada, numerada, limitada, nunca mais poderá ser feita. Ou a tem ou não a tem.
 
E quanto custa uma obra destas?
Há oscilações, porque nem todas têm o mesmo número de páginas, nem todos os exemplares têm o mesmo tipo de encadernação ou o mesmo tamanho. Os preços podem ir desde os 400 euros, para uma coisa simples, até aos 20 mil.
 
Qual foi o livro mais precioso que alguma vez segurou nas mãos?
A Bíblia de Saint Louis, que é considerada o monumento bibliográfico mais importante que o homem fez desde que aprendeu a escrever e a pintar. Tem 4887 pinturas diferentes, o que é quase uma pinacoteca encadernada. Mas todas as obras que editámos são obras-primas e, de qualquer ponto de vista que se olhe para elas, têm um valor incalculável.
 
Que cuidados tem de se ter quando se manipula uma obra dessas?
Em primeiro lugar, é preciso que as mãos estejam muito limpas, naturalmente. E tem de se ter muito respeito. Uma obra como o Beato de Gerona, que é do ano 970, tem mais de mil anos e penso que viverá outros mil se tiver o tratamento adequado. Estas obras sobreviveram porque foram consideradas tesouros logo na origem, no mesmo momento em que foram feitas. Eram tesouros para reis e imperadores que as podiam pagar.
 
Os livros editados pela M. Moleiro são cópias de alta qualidade dessas obras ou mais do que isso?
São muito mais que isso. O diário francês Le Monde qualificou o nosso trabalho como ‘um clone’. Se eu puser uma cópia feita por nós ao lado do original numa vitrina quem se aproximar não consegue perceber qual é o original e qual é a cópia.
 
Se eu as visse lado a lado não as conseguiria distinguir?
Tenho a certeza absoluta de nem você, nem ninguém consegue

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