Da arte e da ciência


Tudo terá começado no Antigo Egito. Os escribas, para prestígio dos faraós, cumpriam o mister: escreviam e copiavam, dando segurança ao registo dos preceitos administrativos. Com a evolução das sociedades e o impacto da Igreja Católica no conhecimento e nos costumes, passaram a ser os monges medievais, no recato dos conventos, a garantirem o labor de reproduzir à mão, um por um, todos os manuscritos que lhes chegavam. Com o célere desenvolvimento civilizacional – mormente com a epopeia das navegações europeias abrindo a porta aos grandes encontros intercontinentais -, os interesses deslocaram-se para práticas instrumentais que ultrapassavam reproduções de bíblias, de livros de horas, de breviários ou de tratados de medicina, para aparecerem, pelas bandas de 1500, os fundamentais atlas, que desenhavam, com os rigores possíveis mas sempre renovados quase após cada viagem, os novos contornos do mundo, tal como ele se despia aos olhos atónitos dos navegadores.
Perceber-se-á que a perfeição e fidelidade à geografia exata não era para todos, e os mais perfeitos eram os mais apetecidos: facilitavam a vida aos navegantes, permitindo rotas e trânsitos mais seguros e eficazes. Numa arte dupla, que reunia num só “tesouro” a informação cientifica e o trabalho artístico, só por si relevante, os portugueses foram mestres. Os mais perfeitos e bem elaborados mapas tinham mão portuguesa, embora nem todos fossem destinados ao uso dos marinheiros ou dirigentes nacionais, como não podia deixar de ser numa Europa empolgada pela descoberta de novos mundos e ávida de consolidar o impacto que as consequências disso tinham no próprio desenvolvimento financeiro das nações envolvidas em tais empresas.
Hoje guardados como preciosidades, pela dimensão científica que contêm e pela fórmula artística que nos legam, esses atlas vão sendo meticulosamente recuperados e divulgados. Entre as preciosidades que guarda, o Arquivo Nacional da Torre do Tombo possui um fantástico exemplar. Trata-se do “Atlas Universal” de Fernão Vaz Dourado. Quando decorria a metade de Quinhentos e andava meio mundo na Europa entusiasmado com a invenção da impressão tipográfica, no seguimento dos ensaios de Gutenberg, os portugueses mantinham a preferência de cartografar manualmente e “enfeitar” pelas técnicas e princípios da iluminura os seus mapas e cartas de marear. Éramos, já então, retrógados, apesar de nação próspera que abrira novos mundos e facultara o contacto entre civilizações e culturas? Nada disso. Enquanto Roma, Antuérpia, Lovaina, Veneza e países do Norte imprimiam pelos novíssimos métodos centenas e centenas de cartas, mapas e atlas, Dourado, que se fixara em Goa, preferia marcar com persistência de copista e de pintor iluminista – ou outros por ele, que é inumano um só artista elaborar um trabalho assim, com precisão e gosto refinado. Este “Atlas Universal”, que felizmente chegou em belíssimo estado até nós, é testemunha disso. São 18 as cartas que compõem esta obra de luxo, em que uma das particularidades apresentadas, além da transparência dos traços descritivos dos recortes das costas, é o processo de “marcação”, porque o autor assume uma “circum-navegação” técnica que sai seguindo a costa índica americana até ao cabo Horn, sobe a costa ocidental das Américas, chega à Europa, escorrega pela costa ocidental de África, ultrapassa o cabo da Boa Esperança, sobe pelo contorno índico africano, vai à Índia e termina nas costas asiáticas. Uma “obra única”, refinada e preciosa, situando-se num registo bem diferente do impresso”, é a que se dá a ver após aturado trabalho de investigação e restauro, elaborados por uma equipa interdisciplinar, culminando tudo numa edição luxuosa desenhada sob o selo da casa M. Moleiro Editor, de Barcelona, os maiores entendidos na matéria.
Aproveitando o ensejo da publicação do “Atlas Universal” de Fernão Vaz Dourado numa editora que inventou o conceito de reedição “quase-original” e que posiciona a sua arte “mais perto do clone que do fac-símile”, como referia há anos o jornal “Le Monde”, o Arquivo Nacional da Torre do Tombo apresenta uma incrível exposição de obras com esse aparato, tidas no acervo da Moleiro, capazes de nos levar numa emocionante viagem por este e outros atlas, pelo “Breviário” de Isabel, “a Católica”, por diversos livros de horas, como o de Henrique VIII de Inglaterra, por tratados de medicina, ou por publicações como o “Livro da Felicidade”, com chancela de Istambul, de 1582, ou então o “Splendor Solis”, o mais belo tratado de alquimia alguma vez pintado.
A exposição destas reproduções preciosas ficará aberta ao público até 21 de junho, de segunda a sexta-feira das 9h30 às 19h30 e aos sábados das 9h30 às 12h15. É uma oportunidade rara para confrontar o olhar com cerca de 40 obras quase originais de códices e atlas, delicadas peças artísticas que nos fazem compreender como Renascença e Idade Medieval não eram atrasadas e constituíam polos de sabedoria, ciência e arte.
 

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