Uma viagem pelo mundo Fernão Vaz Dourado


Edição. A Torre do Tombo, em Lisboa, inaugura hoje a exposição “O Gabinete das Maravilhas – Atlas e Códices dos Melhores Arquivos e Bibliotecas do Mundo” com quase 40 reproduções de grande qualidade editadas pelo espanhol M. Moleiro. Há quem diga que quase se confundem com os originais. Em destaque, a mais recente edição, o Atlas Universal de Fernão Vaz Dourado de 1571: cada um dos 987 exemplares, certificado e acompanhado por um volume inédito com “amplos estudos”, custa dois mil euros.

São 18 folhas de pergaminho vegetal, com 53 centímetros de comprimento e 41 centímetros de largura, numa reprodução “perfeita” do atlas universal que Fernão Vaz Dourado desenhou em 1571. As cores, as imperfeições, as marcas do tempo. Está lá tudo. Não se trata do original – que, como tantos outros documentos preciosos, está guardado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo – mas é, certamente, uma mais-valia para os estudiosos que, assim, já não terão de se deslocar a Lisboa nem pedir autorizações especiais para ter acesso a estes mapas. A edição do Atlas Universal de Fernão Vaz Dourado, ontem apresentada, tem a chancela (e a garantia de qualidade) do editor espanhol Manuel Moleiro: estão disponíveis apenas 987 exemplares, certificados, com um preço que ronda os dois mil euros, e que são acompanhados por um volume com “estudos amplos e multidisciplinares” sobre o atlas e o seu autor.
“Estamos a conservar o passado e a preparar o futuro”, explica Silvestre Lacerda, subdiretor-geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, a propósito desta edição, que está a ser preparada há vários anos. O primeiro contacto entre o editor espanhol e a Torre do Tombo aconteceu em 2006, lembra Silvestre Lacerda, acordando-se então que a par da reprodução haveria uma intervenção de conservação “que permitisse aumentar a estabilidade física do documento”. O atlas não se encontrava em mau estado mas tinha sido encadernado, o que, segundo os especialistas, poderia ter efeitos prejudiciais a longo prazo. Assim, optou-se por desencaderná-lo. Cada folha foi depois fotografada por Luís Pavão e foi a partir dessas imagens que o editor trabalhou.
Para o investigador João Carlos Garcia, da Universidade do Porto, que coordenou os estudos do atlas, o convite para realizar este trabalho foi um desafio que não podia negar: “Estamos um pouco fatigados dos Descobrimentos e da época áurea da cartografia”, confessa. Os investigadores têm tentado “contrariar esta ideia”, estudando a cartografia portuguesa dos séculos seguintes e provando o seu valor. Mas, explica, esta era uma oportunidade única para olhar para este atlas com um distanciamento que não teria sido possível a Armando Cortesão na década de 1960: “Aceitei porque era uma maneira de ter outras leituras. Queria mostrar que um mapa não é um exclusivo produto técnico e científico, é também uma construção cultural e, como um texto, pode ter várias leituras. Poder compará-lo com outras cartografias é algo que ainda não tinha sido feito. Porque a leitura nacionalista que tem sido feita não permitia essas comparações e, além disso, todo o discurso cartográfico servia sempre para justificar o interesse colonial.” São esses múltiplos olhares – que passam pela análise dos símbolos utilizados por Fernão Vaz Dourado ou pelos pigmentos usados nos mapas – que são propostos pelos especialistas que participam na obra. O volume, que será editado em português, castelhano, inglês e francês, conta com prefácio do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva.

Mapas de Quinhentos: entre a ciência e a arte
Passear pelas páginas deste atlas é como realizar uma viagem pelo mundo num barco navegado por Fernão Vaz Dourado: “Começamos pelo estreito de Magalhães, na América do Sul, subimos pela costa da América, atravessamos o Atlântico, descemos da Europa, contornamos África até ao Índico”, explica João Carlos Garcia.
Apesar da ausência do frontespício e da falta de algumas páginas, este atlas é considerado um tesouro da cartografia nacional por ser um dos seis atlas, todos eles ricamente iluminados, conhecidos de Fernão Vaz Dourado (c.1520-c.1580), cartógrafo português estabelecido em Goa.
Em meados de Quinhentos, ele empregava “e enfatizava as premissas das técnicas mais refinadas da pintura miniaturista renascentista”, explica o especialista. “Os pergaminhos utilizados são de uma brancura alva, o desenho é minucioso, detalhado, a paleta rica e sabiamente conjugada com a aplicação do dourado”, o que faz que estas fossem obras únicas e preciosas. Trata-se de um “atlas de luxo” e, embora João Carlos Garcia gostasse de ter acesso aos rascunhos, aos “desenhos a carvão”, que terão antecedido esta obra, para melhor perceber a sua produção, considera fascinante toda a história que envolve o atlas. Até mesmo o facto de ele ter estado guardado na Cartuxa, em Évora, desde o século XVII até aos anos 30 do século XX, quando as ordens religiosas foram extintas, altura em que veio para a Torre do Tombo. De tudo isto vai falar historiador na conferência “O Atlas Universal de Fernão Vaz Dourado: a aliança entre o conhecimento científico e a arte”, hoje, às 18.00, na inauguração da exposição O Gabinete das Maravilhas: Atlas e Códices dos Melhores Arquivos e Bibliotecas do Mundo.

Uma exposição em que as cópias são obras de arte
Desde 1992 que Manuel Moleiro se dedica à edição fac-similada não só de mapas mas também de códices iluminados e outros documentos antigos. A editora, sediada em Barcelona, tem já uma reputação internacional, pela qualidade das reproduções que produz, de tal forma que, a um olhar menos especialista, será difícil dizer se está perante um original ou uma cópia.
Essa é a sensação que se tem ao visitar a exposição O Gabinete das Maravilhas – Atlas e Códices dos Melhores Arquivos e Bibliotecas do Mundo, patente a partir de hoje e até 21 de Junho na Torre do Tombo, em Lisboa. A exposição abre, naturalmente, com o Atlas Universal de 1571, de Fernão Vaz Dourado, que é a mais recente edição de Moleiro. Mas, depois, apresenta perto de 40 reproduções, entre mapas, livros de horas, beatos e tratados científicos, todos de uma enorme beleza, não só pelas imagens que contêm mas também pelas encadernações faustuosas. Além do Atlas Universal de Fernão Vaz Dourado, há mais três obras da cartografia nacional: o Atlas Miller (1519), o Atlas Vallard (1547) e o Atlas Universal de Diogo Homem (1565) – nenhum dos originais está em Portugal. O Atlas Vallard (que está na Biblioteca de Huntington, em San Marino) é particularmente interessante porque é aquele que, segundo alguns especialistas, prova que os portugueses foram os primeiros europeus a chegar à Austrália.
As edições de M. Moleiro são únicas e nunca chegam aos mil exemplares e os seus preços oscilam entre os mil euros e os 20 mil euros, como é o caso da Bíblia de São Luís, que também pode ser vista na exposição. “À medida que vão vendendo, o preço das obras aumenta”, explica o editor. Apesar disso, o mais certo é esgotarem. É caso para dizer que, neste caso, as cópias também são obras de arte.

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