O Livro do Cavaleiro Zifar

Bibliothèque nationale de France, Paris




Cota: Ms. Espanhol 36
Data: último quarto do século XV
Formato: ± 418 x 285 mm
396 páginas, 242 iluminuras decoradas com ouro e prata
Estojo em pele
Encadernação em pele castanha e lombada em pele vermelha
Volume de estudos a cores (332 pp.), por Rafael Ramos (Universidad de Gerona), Juan Manuel Cacho Blecua (Universidad de Zaragoza), José Manuel Lucía Megías (Universidad de Alcalá), Josefina Planas Badenas (Universidad de Lérida), Carmen Bernis (C.S.I.C.) e Francisco Rico (Real Academia Española)
«Primeira edição, única e irrepetível, limitada a 987 exemplares, numerados e autenticados com um certificado notarial»
ISBN: 978-84-88526-25-0


Cota: Ms. Espanhol 36
Data: último quarto do século XV
Formato: ± 418 x 285 mm
396 páginas, 242 iluminuras decoradas com ouro e prata
Estojo em pele
Encadernação em pele castanha e lombada em pele vermelha
Volume de estudos a cores (332 pp.), por Rafael Ramos (Universidad de Gerona), Juan Manuel Cacho Blecua (Universidad de Zaragoza), José Manuel Lucía Megías (Universidad de Alcalá), Josefina Planas Badenas (Universidad de Lérida), Carmen Bernis (C.S.I.C.) e Francisco Rico (Real Academia Española)
«Primeira edição, única e irrepetível, limitada a 987 exemplares, numerados e autenticados com um certificado notarial»
ISBN: 978-84-88526-25-0


Iluminuras
O Livro do Cavaleiro Zifar
Bibliothèque nationale de France, Paris




Livro de estudo

O Livro do Cavaleiro Zifar Bibliothèque nationale de France, Paris


Formato: 280 x 350 mm
Páginas: 332
Ilustrações: 157
Língua: espanhol
ISBN: 978-84-88526-24-3

CONTEÚDO:

Del editor al lector

Nota Previa
Rafael Ramos(Universidad de Gerona)

Invitación a la lectura del Libro del Caballero Zifar
Rafael Ramos

Los problemas del Zifar
Juan Manuel Cacho Blecua (Universidad de Zaragoza)

Los testimonios del Zifar
José Manuel Lucía Megías (Universidad de Alcalá)

El manuscrito de París. Las miniaturas
Josefina Planas Badenas (Universidad de Lérida)

El manuscrito de París. Estudio arqueológico
Carmen Bernis (C.S.I.C.)

Epílogo. Entre el códice y el libro
Francisco Rico (Real Academia Española)






Descrição

O Livro do Cavaleiro Zifar Bibliothèque nationale de France, Paris


Livro de REIS E IMPERADORES

Manuel Moleiro publicou o fac-símile do Livro do Cavaleiro Zifar (BnF, Espanhol 36), o primeiro romance escrito em castelhano. Aproximar-se desta obra a partir da cuidada reprodução de que dispomos actualmente e satisfazer as múltiplas sugestões para a sua leitura que integra o volume de estudos que a acompanha, pode-nos fazer reflectir amplamente sobre o que era na realidade ler uma obra na Idade Média; sobre como um simples romance de aventura podia converter-se num manual educativo ou como alguns manuscritos podem transformar-se em tesouros.

O Livro do Cavaleiro Zifar narra a história deste e da sua família a partir do momento em que oprimidos pelas suas desgraças, abandonam o reino de Tarta. Na sua viagem em busca de um futuro melhor para ele e para os seus, Deus pô-lo-á à prova repetidas vezes: deverá demonstrar que é o melhor caudilho quando, à frente do exército de Galapia, se enfrenta com o do Conde de Éfeso e não deverá desesperar-se quando, após essa campanha militar, se separar dos seus filhos, Garfín e Roboán e da sua esposa Grima. Os primeiros perdem-se e a segunda é raptada por piratas. Zifar, contudo, aceitará as suas desgraças com uma resignação cristã. Acompanhado de um vilão engenhoso, dirigir-se-á ao reino de Mentón, que está em guerra contra os seus invasores e com tão bons dotes de general mostrará perante todos que derrotará o inimigo e chegará a ser rei. Então reaparecerão a sua esposa e os seus filhos, perdidos já há muitos anos. Deus tinha posto a sua linhagem à prova e todos a tinham superado sobejamente, demonstrando assim ser bons cristãos. Todavia, quando tudo parece estar a chegar ao fim, começa uma nova parte do relato. O filho mais novo, Roboán, não se conforma em ser o segundo, por isso pede permissão ao seu pai para que, como ele, procurar novas oportunidades noutros lugares do mundo. Zifar concede-lho, mas antes conversa demoradamente com os seus filhos, dando-lhes um guia completo de como devem ser os seus comportamentos perante o mundo: como devem tratar os demais e defender a Igreja, como devem distribuir a justiça e como devem vigiar a administração das suas posses. No fim deste largo intermédio didáctico, Roboán lança-se à aventura e tão bem aplicará os ensinamentos de seu pai que chegará a ser imperador de Tigrida. Somente então aceitará casar-se com a rainha Seringa, que lhe havia oferecido um reino como o de seu pai.

Esse seria, em poucas palavras, o argumento do Livro do Cavaleiro Zifar. Porém, alguns episódios que não mencionamos encontram-se entre os mais belos da literatura espanhola medieval. A história do conde Nasón, que se apaixonou por uma fada maléfica que vivia no fundo de um lago, ou a de Roboán e a imperatriz Nobleza, que vivem um ano de amor num país maravilhoso, seriam bons exemplos.

Não é a mesma coisa ler um livro nos finais do século XXI do que no século XV: a nossa leitura é silenciosa, enquanto que a medieval se fazia em voz alta; lemos individualmente, enquanto que nos séculos anteriores costumava-se ler em círculo; e, acima de tudo, o códice de Paris tinha um atractivo estético especial que uma transcrição moderna, por muito cuidada que seja, não pode transmitir: a sua indissolúvel unidade entre o texto, a sua caligrafia cuidada e as suas riquíssimas iluminuras, jóia da pintura gótica castelhana. Apenas agora, com a edição fac-símile publicada por Manuel Moleiro, podemos ter esse prazer, até agora reservado unicamente a reis e imperadores.
O manuscrito de Paris é composto por 192 fólios, com quatro folhas de guarda no princípio e no fim. Está escrito sobre velino (o primeiro fólio) e papel, estriado e uniforme, ao longo de todo o códice. Os seus fólios medem, aproximadamente, 400 x 260 mm. Possui duas numerações: uma antiga, em números romanos, errada a partir do fólio 122 (cxxiij) e outra moderna, feita a lápis, em número árabes, ambas no canto superior direito.

O texto está escrito em duas colunas, com um intercolúnio que varia entre 15 e 25 mm. A caixa de escrita também varia nas suas medidas e situa-se entre 195 x 290 e 200 x 285 mm. A letra é redonda ou semigótica, a habitual para os textos em castelhano no século XV. Parece escrito por dois amanuenses diferentes, um, até o fólio 121 e o outro, daí em diante. A tinta do texto conservou o seu tom escuro. Também foi empregue tinta vermelha nos epígrafes e sinais de parágrafos e roxa somente para os sinais de parágrafos, alternando-se com a vermelha. As letras maiúsculas, no começo de cada capítulo, são góticas adornadas com arabescos e representações florais. Para o corpo da letra utiliza-se o dourado sobre uma base de tinta castanha; para a decoração interior, o azul celeste e o vermelho bordeaux e para o contorno da letra, o preto.

O códice possui 243 belíssimas iluminuras, de execução impecável e ricamente iluminadas, repartidas ao longo do texto, com medidas que variam entre 120 x 100 mm quando se situam numa coluna e 150 x 180 mm se ocupam a largura da caixa de escrita. Sem dúvida, esta é a característica que mais sobressai do manuscrito, pois torna-o num dos mais formosos da Idade Média espanhola.
A sua encadernação actual é de pele de vitela com tintas de cor da nogueira sobre capas de madeira que medem 418 x 280 mm. A lombada, de couro vermelho, pertence a uma encadernação anterior. Mede 70 mm de largura e nelas aparecem repetidamente o escudo de Napoleão I (um N com coroa imperial) com adornos dourados que representam flores-de-lis. No rótulo lê-se «Roman de Cifar».

Por outro lado, a mesma história do manuscrito não podia ser mais fascinante, nem mostrar melhor em que círculos sociais podia ser apreciado um códice tão belo como este. Não é em vão, que o Livro do Cavaleiro Zifar esconde atrás das suas aventuras um perfeito manual para a educação dos príncipes e por isso não é de se estranhar que sempre o encontremos nas suas cortes. Foi expressamente copiado para a biblioteca de Henrique IV de Castela, o que explica o luxo extremado do mesmo. À sua morte, passou para Isabel I, onde formava parte do tesouro pessoal da rainha. Por volta do ano de 1511 é possível que tenha pertencido a Charles de Croy, conde de Chimay, de quem conservou as armas numa encadernação de veludo. Em todo caso, em 1526 já estava na biblioteca de Margarida da Áustria e pouco depois, em 1565, na de Maria da Hungria, irmã do imperador Carlos V. Daí passou para a biblioteca dos Duques de Borgonha, onde está documentado em 1577 e 1614, até finais do século XVIII. Em 1796 chega a Paris. Napoleão admira-o e recolhe-o na Bibliothèque Impériale. Ali, onde viria a ser a Bibliothèque Nationale de France a partir de 1871, permanece o códice até aos nossos dias. O papel foi restaurado em 1947 e a encadernação, que permaneceu como já descrevemos, em 1980.

Assim, um manuscrito dessas características e com essa história não podia ser reproduzido senão com todos os detalhes e com um rigor poucas vezes igualado. Na altura de realizar um fac-símile, não se tratava de oferecer um simples suporte material sobre o qual se imprime uma fotografia mais ou menos detalhada de cada página, como costumam fazer a maioria das editoras, mas sim de reproduzir com a maior fidelidade possível um códice que passou pelas mãos de reis e imperadores, um fragmento único de história. Fazer, enfim, um novo original, idêntico. E é aqui onde o bom trabalho de Manuel Moleiro faz com que a sua editora seja a melhor preparada para este tipo de trabalho; a única que podia superar este desafio dignamente. Os seus livros duplicam exactamente o velino e o papel, o corte e a textura dos fólios originais; reproduzem fielmente as suas cores, fundos e ouros, as encadernações e as guardas.

O processo de elaboração é, necessariamente, lento e escrupuloso: o códice é desencadernado com cuidado infinito e fotografado com filme especialmente configurado por fabricantes como Kodak ou Fuji. Paralelamente, uma equipa de restauradores e especialistas em codicologia e iluminuras medievais trabalha durante vários meses na preparação do suporte material, para os quais foram escolhidos os materiais mais nobres e próximos do original. A composição é verificada em cada página independentemente, atendendo aos problemas que possa apresentar e podem-se combinar vários processos de impressão (offset, serigrafia, estamparia, gravação) até que se consiga a maior semelhança possível. Quando existem, reproduzem-se inclusive os defeitos do códice: furos de traças, manchas de cera, raspados, costurados, etc... para não falar das etiquetas de papel em que foram feitas as anotações de cada biblioteca. Também a encadernação é cuidada até o último detalhe com um processo tão completo como o do livro. E, quando for apropriado, cada um desses elementos sofre um processo de envelhecimento. Um trabalho laborioso, como se vê, no qual se combina o rigor do especialista em arte medieval, o trabalho artesão e as tecnologias mais avançadas. O resultado final, no caso do livro do Cavaleiro Zifar, é esmagador: é materialmente impossível distinguir a cópia do original. Por isso, Manuel Moleiro gosta de dizer que a palavra “fac-símile” da qual tanto se abusa nas editoras especializadas, ficou pequena para falar dos seus livros: ele prefere “quase-original”. Contudo, face ao original único e irrepetível e difícil de se consultar numa biblioteca distante, aparecem agora 987 exemplares “quase-originais”, numa tiragem única e irrepetível, numerados e autenticados em acta notarial; 987 exemplares que deleitarão os seus 987 possuidores.

A sua boa arte é manifestada, por exemplo, na fantástica colecção de manuscritos iluminados com a obra de Beato de Liébana, que lhe deu fama internacional. Entre os mais recentes destacam-se o Códice de Girona (século X), o Códice de Santo Domingo de Silos (século XI), o Códice de San Pedro de Cardeña (século XII) e o Códice de San Andrés de Arroyo (século XIII). Na Idade Média era um sinal de distinção, para todo o mosteiro ou toda a corte que se prezava, possuir um exemplar iluminado desta obra, mas, em relação à aceitação com que estes novos originais estão a ser recebidos pelos bibliógrafos contemporâneos, é indubitável que nos princípios do século XXI nos continuem a deslumbrar com as suas primitivas e formosas iluminuras.

Prova de que o trabalho de Manuel Moleiro satisfaz as mais altas expectativas é que as principais bibliotecas do mundo trabalharam com ele. Assim, a Bibliothèque Nationale de France deu a permissão necessária para que se realizassem as reproduções do Livro do Cavaleiro Zifar, o Apocalipse Flamengo (por volta de 1400) e o Saltério Glosado (executado em diferentes etapas entre 1200 e 1340). O mesmo fizeram a Biblioteca Estense Universitária, de Modena, para o Livro de Oração de Alberto de Brandemburgo (1534) e a Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa, para o magnífico Apocalipse Gulbenkian (século XIII). A prestigiada British Library, de Londres, autorizou a reprodução de algumas das suas jóias mais valiosas, como o Livro de Horas de Joana a Louca (c. 1500) e o curiosíssimo Livro do Golfe (c. 1530), e a Biblioteca Nacional da Rússia, de São Petersburgo, empenhou-se em projectos como o Livro do Tesouro, de Brunetto Latini (do século XIV), o Livro de Horas de Luís de Orleães (1490) ou o Livro dos Medicamentos Simples (século XV), que tinha pertencido a Carlos V. Mas também dão provas do seu amor pelos livros as suas investigações em bibliotecas menos: foi assim que apareceram o Liber Testamentarum (século XII) da Catedral de Oviedo ou a extraordinária Bíblia de São Luís (século XIII), da Santa Igreja Catedral Primada de Toledo, sem dúvida, a mais formosa e rica das bíblias medievais. Todas lhe abriram as portas e lhe permitiram trabalhar com os seus tesouros mais bem guardados, os livros que não têm preço. O prestígio destas bibliotecas, a amplitude de perspectivas do editor ao dirigir o seu olhar para tão variados cenários, são toda uma garantia de rigor e profissionalismo na hora de fazer o seu trabalho.

O maravilhoso fac-símile do Livro do Cavaleiro Zifar vem acompanhado de uma colecção de estudos sobre o mesmo. O objectivo deste livro independente, de 332 páginas, é servir de guia a quem deseja aprofundar-se nos segredos do texto que adquiriram. Neste caso, os estudos foram reunidos sob a direcção de Francisco Rico, da Real Academia Espanhola, que seleccionou a sua própria equipa de investigadores. Estes, contudo, não se limitaram a resumir o quanto se sabia sobre o Livro do Cavaleiro Zifar e a expô-lo de forma simples, mas enfrentaram a obra como investigadores da mesma. Em vez de um guia, é um livro fundamental para entender a obra, pois boa parte do material recolhido nestes capítulos é inédito e totalmente novo para a comunidade científica internacional.

O volume de estudos abre-se com um «Invitación a la lectura del Libro del caballero Zifar» aos cuidados de Rafael Ramos, em que é revisto em grandes linhas o argumento do livro e relaciona-se com as diferentes tradições literárias que lhe dão origem: relatos hagiográficos, literatura sapiencial de origem clássica e árabe, lendas fantásticas e, sobretudo, relatos cavaleirescos inspirados nos livros artúricos. O resultado final, contudo, não é um livro de cavalarias como os que se viriam a impor séculos depois na Espanha, mas sim um manual completo para a educação dos cavaleiros da corte.

« Los problemas del Zifar», de Juan Manuel Cacho Blecua é um bom resumo dos estudos que foram dedicados. Analisam-se detalhadamente problemas como o da data da obra (que se julga escrita por volta de 1304 quando na realidade é de meados do século XIV) ou o problema da autoria (e, junto a ele, a problemática atribuição da mesma a Ferrán Martínez). Também são revistas as suas principais fontes e a sua posição no género da narrativa cavaleiresca ou a sua relação com outras obras castelhanas da época.

Mais concretamente, no entanto, é o capítulo de José Manuel Lucía Megías, «Los testimonios del Zifar». Nele são apresentados três testemunhos conservados desta obra medieval: o manuscrito 11309 da Biblioteca Nacional de Madrid, o manuscrito Esp. 36 da Bibliothèque Nationale de France e a edição impressa em Sevilha em 1512 (da qual somente foram conservados dois exemplares). É analisado detalhadamente cada um deles (especialmente o códice de Paris, que é o editado em fac-símile), manifestando assim a importância de cada testemunho na transmissão textual.

Concentrando-nos já no códice editado, o estudo de Josefina Planas, «El manuscrito de París: las miniaturas» dedica-se a analisar, a partir do ponto de vista de uma especialista na história da arte medieval, o seu aspecto mais chamativo. Ao tratar-se de um manuscrito realizado expressamente para Henrique IV, a riqueza da sua iluminação é transbordante e situa este testemunho do Livro do Cavaleiro Zifar à altura dos melhores manuscritos espanhóis da Idade Média, perfeitamente equiparável às grandes criações do século XIII (as obras do scriptorium de Afonso X, o Sábio) ou a das que viriam mais tarde, durante o reinado dos Reis Católicos: os dois momentos cimeiros da iluminura castelhana. Neste excelente capítulo, apresenta-se a raridade de um códice tão rico como este num panorama como o de Castela dos três primeiros quartos do século XV, tão pouco voltada para os manuscritos iluminados, muito menos quando não se tratava de livros religiosos. Além disso, para a sua execução procurou-se a oficina dos melhores artistas da corte, o dos irmãos Juan e Pedro Carrión, que estavam a par das técnicas mais revolucionárias recém-chegadas de Flandres. Perante uma competente equipa de miniaturistas, todos eles diferenciados e identificados pelas características formais do seu estilo, foram realizadas as ilustrações do livro, detendo-se com atenção especial em algumas passagens sentimentais (a solidão de Zifar, as aventuras de Grima, os amores de Roboán e Nobleza) ou moralizantes (alguns dos pequenos contos intercalados) que são magistralmente analisados a partir do ponto de vista da relação entre texto e imagem.

Carmen Bernis, no «El manuscrito de París: estudio arqueológico», realiza uma curiosíssima análise às peculiaridades das iluminuras. Assim, as vestimentas de homens e mulheres, em que ficam patentes as diferentes modas que se vigoravam em Castela aquando da realização do códice; o mundo militar, com as suas armaduras, armas defensivas e ofensivas, cidades sitiadas e máquinas de guerra; o interior das casas, com os seus móveis e adornos... tudo aparece perante os nossos olhos com a magia daquilo que no seu tempo foi quotidiano, mas que hoje apenas chegamos a entender. Desta minuciosa análise, extraímos notícias preciosas sobre o passado que nenhum documento nos podia haver transmitido: as iluminuras reflectem a realidade da sua época com uma precisão que nenhum historiador poderia jamais ter igualado.

Encerra o livro um interessante epílogo de Francisco Rico. O seu estudo «Entre el códice y el libro» toma em consideração alguns dos problemas mais salientes de Zifar no contexto da literatura medieval europeia. Assim, as suas reflexões sobre a relação do texto com as iluminuras que o ilustram, ou sobre a utilidade exemplar e recreativa desta obra, conferem uma maior riqueza às páginas precedentes.

O volume de estudos, todavia, não se limita a oferecer o cuidado texto destes seis estudos, mas também é acompanhado por uma selecção das iluminuras mais interessantes e mais relacionadas com o tema falado a cada momento. Converte-se, assim, numa pequena jóia independente. Mais do que uma colecção de ensaios sobre o manuscrito do Livro do Cavaleiro Zifar, um mero complemento do fac-símile, é acima de tudo, um formoso livro de arte que interessará a todo aquele que o folhear.

Por tudo o que foi dito, a edição deste fac-símile e o seu volume de estudos anexo não é senão do que uma excelente notícia tanto para aqueles que desejam enobrecer a sua biblioteca com um dos manuscritos mais formosos da Espanha medieval, como para quem estuda a literatura medieval dessa época. Manuel Moleiro, como já o dissemos, não faz reproduções mais ou menos acertadas; faz um novo original apenas distinguível do primeiro, por aquele ter estado nas mãos de reis e imperadores. Por isso não é de se estranhar o êxito desmedido de algumas das suas edições anteriores, como o Beato de Fernando I (do século XI), o Livro de Horas de Maria de Navarra (do século XIV), o Theatrum Sanitatis, o Martirológio de Usuardo e o Livro de Horas de Carlos VIII (os três do século XV), que já se esgotaram. Por isso, algumas grandes bibliotecas encomendaram fac-símiles dos seus fundos mais valiosos: os estudiosos poderão utilizar estas reproduções com absoluta fiabilidade enquanto que os textos originais estão guardados em perfeitas condições. É o caso de Thêriaka e Alexipharmaka, de Nicandro de Colofón, um belo códice bizantino do século X conservado na Bibliothèque nationale de France. Por isso, inclusive, a Interpol recorreu várias vezes à sua editora à procura de ajuda quando realizava investigações sobre códices medievais.

Dito isto, não nos causará estranheza que os bibliófilos europeus sejam clientes habituais de Manuel Moleiro (desde o rei da Suécia até aos simples professores universitários), nem que os seus livros sejam uma prenda habitual para grandes personalidades (S.S. João Paulo II ou S.A.R. a Duquesa de Palma são bons exemplos disso).

- Rafael Ramos é professor da Universidade de Girona. Realizou numerosos estudos sobre literatura espanhola da Idade Média e do Século de Ouro, centrando-se especialmente no campo dos relatos cavaleirescos. Entre as suas publicações podem-se destacar Para a data do «Amadis de Gaula» (Madrid, 1994), «Tirant lo Blanc», «Lancelot du Lac» e o «Llibre del ordre de cavalleria» (Williamsburg, VA, 1995), Folclore e historiografia en «El caballero del Cisne» (Madrid, 1996) e Leitura e leitores de relatos de cavalarias na Castela medieval (Madrid, 2003).



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