Bíblia moralizada de Nápoles

Bibliothèque nationale de France, Parigi




Cota: Français 9561
Data: c. 1340-1350
Tamanho: ± 310 x 210 mm
Lugar de origem: Nápoles
384 páginas, 204 miniaturas enriquecidas com ouro
Encadernação em pele castanha com borda dourada
Volume de estudos a cores (376 pp.) por Marianne Besseyre (Curator at the Centre de recherche sur les manuscrits enluminés, BnF) e Yves Christe (Honorary Professor, Université de Genève)
«Primeira edição, única e irrepetível, limitada a 987 exemplares, numerados e autenticados com um certificado notarial»
ISBN: 978-96400-53-5


Cota: Français 9561
Data: c. 1340-1350
Tamanho: ± 310 x 210 mm
Lugar de origem: Nápoles
384 páginas, 204 miniaturas enriquecidas com ouro
Encadernação em pele castanha com borda dourada
Volume de estudos a cores (376 pp.) por Marianne Besseyre (Curator at the Centre de recherche sur les manuscrits enluminés, BnF) e Yves Christe (Honorary Professor, Université de Genève)
«Primeira edição, única e irrepetível, limitada a 987 exemplares, numerados e autenticados com um certificado notarial»
ISBN: 978-96400-53-5





Livro de estudo

Bíblia moralizada de Nápoles Bibliothèque nationale de France, Parigi


Contents:

From the editor to the reader

Introduction
Marianne Besseyre (Curator at the Centre de recherche sur les manuscrits enluminés, BnF)

The Bible moralisée of Naples, a medieval masterpiece of Italian illumination and a historical enigma
Marianne Besseyre

The Bible moralisée of Naples: a hidden treasure finally acclaimed
Yves Christe (Honorary Professor, Université de Genève)

Commentaries on the paintings
Yves Christe
Marianne Besseyre

Conclusion
Marianne Besseyre

Bibliography

ISBN 978-84-96400-54-2






Descrição

Bíblia moralizada de Nápoles Bibliothèque nationale de France, Parigi


A Bíblia Moralizada de Nápoles (ms. Fr. 9561), confiada por Roberto, o Sábio, no final do seu reinado e acabada nos inícios do ano 1350 sob o reinado da sua neta Joana, conduz-nos através de mais de um século de historia dinástica entre a França e a Itália.

A Bíblia de Nápoles teve como modelo uma Bíblia moralizada francesa, em um volume, feita em Paris por volta de 1240, a qual tinha pertencido a Carlos de Anjou, irmão mais novo de São Luís – a quem a sua mãe, Branca de Castela, confiou a Bíblia de São Luís. Os medalhões característicos destas Bíblias são aqui substituídos por registos rectangulares mais próprios da tradição italo-antiga, e inclusive de acordo com as bandas da pintura a fresco que florescem a partir de 1300 sobre as extensas superfícies dos novos edifícios. Estas são algumas referências culturais dominantes que outorgam ao manuscrito napolitano o seu próprio carácter.

A Bíblia, escrita em francês, contém uma parte do Antigo Testamento (desde o Génesis até ao 3º livro dos Juízes, fólios 1-112v) acompanhada de moralizações e um ciclo neotestamentário muito desenvolvido, desde a expulsão de Joaquim do Templo até a Pentecostes, fólios 113r-189v).

Trata-se de uma incumbência de luxo e cada fólio está pintado apenas de um lado, o lado carne. A obra é extraordinária e a excepcional qualidade pictórica das suas miniaturas, principalmente das 76 de página inteira que relatam os momentos chave da vida e paixão de Cristo, foram realçadas pelos historiadores de arte.

Esta Bíblia apresenta, num mesmo volume, uma justaposição de duas fórmulas ilustrativas que fazem dela um objecto excepcional. As primeiras 128 miniaturas enquadram-se no género das Bíblias Moralizadas. Excepto o frontispício a toda página do fólio 1, as miniaturas da secção veterotestamentária são emolduradas numa borda pintada frequentemente com decorações do tipo vegetal e dividem-se em dois registos, a parte superior para as cenas bíblicas e a inferior para a sua moralização. As 76 pinturas em página inteira do ciclo neotestamentário contrastam radicalmente com o ciclo que precede, introduzindo-nos num âmbito figurativo e espiritual diferente, de inspiração principalmente giottesca. Cada miniatura, pintada sobre um fundo de folha de ouro, ilustra um só tema, pelo que o cânone das personagens é muito maior que na parte moralizada. O ciclo começa com episódios apócrifos da Lenda Dourada, e a partir da Anunciação (f. 129), o programa iconográfico inspira-se em textos canónicos. O conjunto da ilustração deve-se essencialmente a duas mãos.

Como entender esta fractura tão forte, esta mudança radical de direcção que se observa entre o programa iconográfico da primeira parte da Bíblia e o espírito sensível, totalmente em sintonia com o estilo dos frescos florescentes naquela época em Nápoles, expresso na segunda parte? Tudo nos leva a crer que a sua realização foi lenta ou talvez, inclusive, foi interrompida durante algum tempo e que, quando foi retomada, o projecto inicial já não parecia tão pertinente. Sem dúvida, era um momento em que a grande pintura oferecia novas e abundantes fontes de inspiração.

Só falta precisar quem foi o comitente desta mudança de orientação, e a quem pôde ser confiada a sua execução. A pintura estalada em algumas partes, bem como a aplicação da folha de ouro em alguns lugares, deixam entrever mãos acostumadas à técnica do fresco. Já em 1969 Ferdinando Bologna propunha identificar o artista das melhores páginas da Bíblia com um aluno napolitano de Giotto autor, também, de um ciclo sobre a Vida da Virgem realizado por volta de 1335 na capela Barrile de São Lourenço, santuário de um amigo e conselheiro do rei Roberto.

O manuscrito Fr. 9561 é a única cópia italiana conhecida de uma Bíblia moralizada, executada para Roberto, o Sábio, membro da primeira Casa de Anjou. Esta Casa descende em linha directa do ramo dos Capetos por Carlos I, irmão de São Luís e fundador da dinastia angevina.

A dinastia angevina instalou-se em Nápoles, nova capital de um reino guelfo e francês, um poder claramente feudal. As coisas tinham começado mal sob o mandato de Carlos I, com a espoliação e a exploração desapiedada das terras da antiga nobreza italiana, o que suscitou o ódio perante o invasor e a sua expulsão da Sicília. Mas Carlos II, graças a uma diplomacia subtil e com medidas de boa governação, deixou finalmente a seu filho Roberto, um reino pacificado. O novo soberano transformou-se rapidamente em modelo de justiça, de sabedoria e de erudição, desenvolvendo um mecenato orquestrado como uma política cultural. Como bibliófilo, privilegia os livros de moral, de filosofia, de religião, de direito e de medicina. Fá-los chegar de Paris ou do resto da Itália e manda transcrever outros in situ a escribas provenientes da França, Lombardia ou Toscana. Os miniaturistas são quase todos anónimos, mas deviam existir vários scriptoria em Nápoles e os miniaturistas dos princípios do século XIV revelam-se sensíveis à arte inovadora do pintor romano Cavallini, em Nápoles desde de 1308, e mais tarde à de Giotto, cuja presença na capital desde 1328 até 1333 foi demonstrada. Roberto, o Sábio, confia a Giotto a realização de frescos em dois lugares simbólicos do poder angevino: a capela palatina do Castelo Novo (o palácio) e o convento franciscano de Santa Clara (a necrópole). O artista dirigia uma grande oficina composta de ajudantes de grande nível e de diversos aprendizes, muitos deles provenientes, sem dúvida, de Florença e de Assis, centros onde também se encontravam nos anos de 1330 outras grandes oficinas. Cerca de dez anos após a sua morte (1337), no momento da realização da segunda parte da Bíblia Moralizada, a herança do mestre, perpetrada e modulada pelos seus seguidores, em particular, Maso di Banco, era também perfeitamente assimilada pelos seus alunos napolitanos. Roberto tem a capacidade de se fazer com os melhores artistas do seu tempo. Encarrega-lhes da concepção de ambiciosos conjuntos ao serviço da legitimidade e promoção da casa real apoiado por uma verdadeira “política das imagens”. A Bíblia Moralizada enquadra-se provavelmente neste âmbito de autopromoção dinástica de uma família que conta desde então com dois santos para venerar entre os seus: Luís de Tolosa e o antepassado capeto, Luís de França, destinatário de outra Bíblia Moralizada realizada em Paris. Esta obra, seguramente desejada por Roberto, confere ao exemplar napolitano o status simbólico de objecto relicário, testemunha de uma genealogia familiar ilustre e das suas legítimas reivindicações.

A obra oferece-nos um dos mais raros e perfeitos exemplos de pintura verdadeiramente napolitana, uma síntese paradoxal das melhores correntes artísticas do momento antes da homogeneização do gótico internacional.


Roberto, o Sábio, foi rei de Nápoles entre 1309 e 1343.



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