Atlas universal de Fernão Vaz Dourado

Atlas universal de Fernão Vaz Dourado FOLHA 14 - NESTA. FOLHA. ESTA LAMCADO. DE PEGV. ATE A COSTA QVE DESCVBRIO. O MAGALHAIS. COM TODA. A COSTA. DA. IAVA.
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FOLHA 14 - NESTA. FOLHA. ESTA LAMCADO. DE PEGV. ATE A COSTA QVE DESCVBRIO. O MAGALHAIS. COM TODA. A COSTA. DA. IAVA.

Cerca de dois quintos desta carta provêm da anterior: todo o espaço para Norte do Equador e para Oeste da escala de latitudes pôde já ser observada. As grandes regiões figuradas estendem-se desde a Península da Malásia, da Conchinchina e de Sumatra até Java, Ilhas de Sonda (com Solor e Timor) e às Molucas e Nova Guiné, dividindo-as o Equador em duas partes iguais: 19º para Norte e 19º para Sul. A presença na Cartografia portuguesa, da sequência das ilhas de Sumatra, Java e o arquipélago de Sonda, em direcção às Molucas, data das primeiras décadas do século XVI. Nas cartas insertas no Livro de Francisco Rodrigues, de c. 1513 ou na carta do Índico atribuída a Pedro Reinel, de c. 1517, tem a imagem de Vaz Dourado os seus “longínquos” fundamentos.

A carta tem muito de semelhante com a fol. 19 do Livro de Marinharia de João de Lisboa, de c.1560, mas uma grande parte da imagem, até à escala de latitudes, é uma quase cópia da parte sul do fol. 6r. do Atlas Universal de Lázaro Luís. O primeiro autor a fazer a comparação terá sido Varnhagen, que a sublinha, quer na descrição do próprio Atlas, quer ao comentar a obra de Lázaro Luís: “A folha 14 d’este Atlas é uma cópia da folha 6ª do Atlas de Lazaro Luiz feito em 1563, isto é, oito anos antes do de Vaz Dourado.” E mais adiante: “Esta Carta foi sem dúvida copiada da que vem na 6ª folha do Atlas ms. de Lazaro Luiz feito em 1563 e que está na livraria da Academia das Sciencias de Lisboa.” E a propósito do Atlas de Lázaro Luís:

Esta carta [6ª] é a mesmíssima da folha 14ª do Atlas de Fernão Vaz Dourado e tem nos mesmos e respectivos logares as mesmas costas que vem na Carta deste A. A saber 1º aqi emvernou Martim Afonso de Melo 2º aqi emvernou dom Jorge de Menezes 3º Costa de luçois e Laos omde paçou p. fidalgo vimdo de borneo Num junco de Chis e corea com temporal ao lomgo dela foi tomar llamão. As referências e as ilhas onde “invernaram” Martim Afonso de Melo (entre os Mares de Banda e Arafura) e D. Jorge de Meneses (ao largo da costa norte da Nova Guiné) encontramo-las já na fol. 9 do Atlas de Diogo Homem, de 1558, da British Library, nas fols. 9r e 9v do Atlas atribuído a Bartolomeu Velho, de c. 1560, da Huntington Library, e na fol. 19r do Atlas atribuído a Sebastião Lopes, de c. 1565, da Newberry Library de Chicago, precisamente com as mesmas localizações. Como deixámos dito, nesta última obra se encontra também a referência à viagem de Pero Fidalgo.
Mas Varnhagen deixa ainda notícia da herança da imagem de Vaz Dourado:

E deste de Vaz Dourado copiou sem dúvida J. Hugue de Linschot Hollandez para o seu Gran Routier da edição de 1619 do qual com as competentes cartas, existe um exemplar na Biblioteca Pública de Lisboa – e parece que foi de Linschot que Gerard Mercator copiou a carta que vem depois da pagina 361 da Edição de Amsterdam de 1619.

Embora Armando Cortesão não esteja de acordo, não temos dúvida sobre o papel desta imagem como fonte para Linshoten. As quatro bandeiras que remetem para a presença e posse portuguesas de vários locais e territórios repartem-se entre: Malaca, as Molucas e as ilhas do Mar de Banda (Banda e Amboino). No canto inferior direito, sob um ampliado e detalhado litoral rectilíneo, para Leste do anti-meridiano de Tordesilhas materializado pela escala de latitudes, encontramos a marca de posse sobre territórios espanhóis: um brasão com as armas de Castela/Leão e Aragão/Sicília. A envolver o escudo, a inscrição: “Esta. Costa. Descubrio. Fernäo de magalhais. Naturall portuges. Por mamdado do emperador carllos. O ano de. 1520.” Porém, a figurada costa leste-oeste, continuada na folha seguinte, ilustra um ou vários itinerários náuticos, paralelos ao Equador, 4º a sul deste. Trata-se claramente do litoral norte da Nova Guiné, onde Magalhães não esteve, percorrido, primeiro, por D. Jorge de Meneses, da parte portuguesa, e por Álvaro de Saavedra, da parte espanhola, em 1527, e depois, com maior detalhe, por Villalobos e Iñigo de Retes, que atribuiu o nome à grande ilha, em 1545.

Mas os comentadores oitocentistas vão mais longe ao imaginarem ver a própria costa da Austrália. Referia o futuro 1º Visconde de Sá da Bandeira, em 1832: “N’um dos mappas acha-se marcada a costa septentrional da Australia, e por baixo lê-se: Esta costa foi descoberta por Fernão de Magalhaens, natural Portuguez, por ordem do Emperador Carlos, no anno de 1520. Isto he, cem annos antes dos Hollandezes a verem.” E Varnhagen poucos anos depois, a propósito da fol. 14: “(…) contem uma das cartas mais interessantes deste mappa, por quanto tende a elucidar em parte a historia dos descobrimentos na Austrália.” Para contestar as românticas hipóteses oitocentistas recordaríamos que o ponto mais setentrional do continente australiano se localiza a 10º 41’ S.

João Carlos Garcia
(Faculdade de Letras, Universidade do Porto)
 

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