Livro da caça, de Gaston Fébus

Bibliothèque nationale de France, Paris




• Cota: Français 616 
• Data: princípios do século XV
• Tamanho: 370 x 275 mm 
• 436 páginas, 87 miniaturas 
• Encadernado em marroquim

• Cota: Français 616 
• Data: princípios do século XV
• Tamanho: 370 x 275 mm 
• 436 páginas, 87 miniaturas 
• Encadernado em marroquim



Descrição

Livro da caça, de Gaston Fébus Bibliothèque nationale de France, Paris


História do códice
Ao longo da sua história, o manuscrito mudou de proprietário em numerosas ocasiões: Aymar de Poitiers (finais do século xv); Bernardo Cles, bispo de Trento, que pouco antes de 1530 ofereceu o manuscrito à Fernando I de Habsburgo, infante da Espanha a arquiduque da Áustria, irmão de Carlos V. Em 1661, o marquês de Vigneau ofereceu o Livro da caça ao rei Luís XIV (r. -1715), o qual mandou guardar o manuscrito na Biblioteca Real. Em 1709 foi retirado da biblioteca e acabou por parar nas mãos do príncipe herdeiro da França, o duque de Borgonha, que por sua vez o arquivaria no Cabinet du Roi. Em 1726, o manuscrito reaparece na biblioteca do castelo de Rambouillet, na posse do filho natural de Louis XIV, Luís Alexandre de Borbón. Após a sua morte, foi herdado pelo seu filho, o duque de Penthièvre. Mais tarde pertenceu à família Orleans e finalmente ao rei Luís Felipe, que em 1834 levou-o ao Louvre. Após a revolução de 1848 foi devolvido à Biblioteca Nacional.
 
O livro
O Livro da caça foi escrito ou, melhor dito, ditado a um escriba, entre 1387 e 1389 por Gaston Fébus, conde de Foix e visconde de Bearne, e dedicado ao duque de Borgonha, Felipe II, o Audaz. Homem de personalidade complexa e vida tumultuosa, Fébus foi um grande caçador e um grande amante dos livros dedicados à montaria e à falcoaria. O volume que redigiu com esmero foi, até finais do século xvi, a obra de referência para todo aficionado pela arte da caça. Por outro lado, o Livro da caça, ao descrever com clareza e precisão a natureza e diferentes tipos de animais, assentou as bases de uma ampla história natural que, séculos mais tarde, um naturalista da reputação de Georges Buffon (1707-1788) não duvidou em recuperar para a sua própria História natural, um manual em uso até o século xix.
Entre os 44 exemplares conservados desta obra, o manuscrito Français 616 é, sem dúvida, o mais belo e o mais completo. O texto está escrito num excelente francês semeado de carateres normandos e picardos. Este manuscrito, além do Livro da caça propriamente dito, contém o Livro de orações também escrito por Gaston Fébus, assim como um segundo tratado chamado Déduits de la chasse (Prazeres da caça) redigido por Gace de la Buigne. Ilustram as suas páginas 87 miniaturas de impressionante qualidade, que se encontram entre as produções mais atrativas da iluminação parisiense de princípios do século xv. E mais, poucos são os livros dedicados à arte da montaria cuja riqueza pictórica seja comparável à das Bíblias.
 
As lições
O Livro da caça foi, até finais do século xvi, o “breviário” dos seguidores da arte da caça ou da cinegética. Trata-se de um manual de instruções para os caçadores, estruturado em sete capítulos enquadrados por um prólogo e um epílogo, que descreve em detalhe como realizar uma caçada. Escrito para os jovens aprendizes, o texto apresenta uma lição concisa, mas com a vivacidade e o interesse próprios de quem é apaixonado pela temática. Gaston Fébus não se esquece da importância dos animais que participam nas montarias, especialmente dos cães, fiéis companheiros dos caçadores. Transmite os seus conhecimentos acerca das diferentes raças e os seus respetivos comportamentos, como treiná-las, como alimentá-las e até mesmo como tratar as suas diversas enfermidades. Fica patente que a caça, predileção por excelência de qualquer senhor da Idade Média, não é apenas um passatempo, mas que comporta muitas habilidades e qualidades, tanto humanas como profissionais.
Mas ficarmos unicamente com o seu conteúdo técnico seria obviar a essência da obra de Gaston Fébus. Com efeito, para além do âmbito da caça, este tratado tão pessoal e original é, antes de tudo, uma obra própria do seu tempo, um tempo em que a ideia do pecado e do temor à condenação era onipresente. Ao redigir a sua obra, Gaston Fébus apresenta a caça como um exercício de redenção que permitiria ao caçador o acesso direto ao Paraíso. De fato, a atividade física de quem caça, que exige uma certa experiência, é um remédio perfeito para evitar a ociosidade, fonte de todos os males, ao mesmo tempo que mantém a prudência do corpo e da mente e evita assim toda a possibilidade de pecado. O que esta obra põe sobre a mesa não é outra coisa que a tragédia da existência humana, a busca da vida eterna depois da passagem pelo mundo terreno, que é onde a conquistamos.
 
A ilustração
As miniaturas do Livro da caça foram encarregues a vários artistas, entre eles a um grupo chamado "corrente Bedford", do qual se destaca o Mestre dos Adelfos, pelo seu sentido de observação e a estilização decorativa, que fazem dos seus trabalhos exemplos muito representativos do estilo gótico internacional. Também associado a este grupo identificamos o Mestre de Egerton, de estilo próximo ao dos irmãos Limbourg. Por último, acreditamos poder distinguir também o Mestre da Epístola de Otea, cujas obras são reconhecíveis pela sua textura pictórica grossa, muito diferente da execução suave própria da "corrente Bedford", com a qual parece ter colaborado unicamente neste manuscrito.
Dominando na perfeição os códigos de representação da Idade Média, os miniaturistas colocam a sua arte ao serviço do projeto pedagógico de Gaston Fébus. Os segundos planos estão lindamente decorados com miniaturas que recordam as tapeçarias da época, mas em formato pequeno. Não se procura tanto representar um espaço real, mas insistir na hierarquia de valores. Tudo está calculado e reflete-se num discurso coerente. A passagem do tempo está bem evocada pelas diferentes idades das personagens, as suas atividades, as suas relações e a sua situação no espaço; estabelece-se assim um paralelismo entre a caça e o processo de aprendizagem da vida. O caráter mimético e ao mesmo tempo ordenado dos elementos, confere ao conjunto bastante identidade e um certo ar de serenidade, guiando o leitor para que este descubra os segredos de uma montaria bem praticada. Muito mais do que uma lição de caça, o que se oferece é uma lição de vida.
Estabelece-se assim um jogo de correspondências típico da época: as partes do corpo relacionam-se com os planetas, as estrelas e as flores da terra com o céu. O mundo propaga-se num constante eco de si mesmo. Por outro lado, a proximidade dos seres e das coisas, associada à dinâmica das linhas, reflete uma comunicação entre uns e outros. Realmente, segundo explicou o filósofo Michel Foucault, até o século xvi o conhecimento do mundo visível e invisível, a arte de representá-lo e a sua interpretação, está baseado na similitude e na repetição: a terre reflete o céu, a arte é o espelho do mundo. No caso específico do Livro da caça, esta correspondência é estabelecida através da comunicação existente entre os caçadores e as suas presas, evocando assim a dimensão espiritual da caça, pela redenção e a salvação que promete.


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